Entrevista com Orlando Luz

Confira a bela matéria/entrevista com Orlando Luz para o GloboEsporte.com de Porto Alegre:

Orlandinho nega rótulo de novo Guga e projeta Pan: “Ouro não é impossível”

Gaúcho de 17 anos, número 2 do ranking júnior, convive com a pressão de repetir os passos do tricampeão de Roland Garros e defenderá o Brasil nos jogos de Toronto

Nada de estudos para prestar vestibular ou de saídas com os amigos, naturais para um jovem de 17 anos. Orlando Luz se acostumou desde cedo a ter de provar seu talento no tênis a cada raquetada. O esporte, transmitido de pai para filho, corre em suas veias como principal paixão de sua vida. Também constitui um fardo difícil de carregar, dados os resultados expressivos dentro de quadra: as constantes comparações com Gustavo Kuerten. Para Orlandinho, a alcunha de “Novo Guga” é até mais corriqueira do que os encontros com a turma, nas areias da praia em Balneário Camboriú. Uma pressão natural, à qual se soma ainda outra responsabilidade: representar 200 milhões de brasileiros nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá.

Orlando Luz Orlandinho (Foto: Marcelo Roggia/Divulgação)Orlandinho será o representante do Brasil no Pan de 2015, em Toronto (Foto: Marcelo Roggia/Divulgação)

Uma oportunidade que deixa o gaúcho natural de Carazinho incrédulo, mesmo diante de um currículo de peso. Aos 17 anos, Orlandinho já superou algumas marcas do ídolo tricampeão de Roland Garros. A primeira vitória como profissional, por exemplo, veio antes. Atual segundo colocado do ranking júnior, o tenista já foi líder do circuito, feito nunca alcançado por Guga. O garoto sabe que lhe resta muito caminho a trilhar até jogar em alto nível na elite do tênis mundial, mas já sonha com ouro em solo canadense.

– Eu sabia que a convocação poderia acontecer, mas não tinha nem um pouco de esperança. Vai ser uma grande honra. Eu sei que o pessoal deposita cada vez mais esperanças em mim. É uma pressão boa, mas sei que vou ter altos e baixo, derrotas, com as quais tenho que lidar. Tenho que ficar firme, continuar treinado para evoluir e chegar ao topo o mais rápido possível. Eu sei que não vai existir um “Novo Guga”. Também sei que o ouro é difícil, mas não impossível. Vai ser uma semana de competições como todas as outras – afirma o gaúcho ao GloboEsporte.com.

No Pan, além de representar o Brasil na disputa de simples, Orlandinho repetirá a dupla vencedora de Wimbledon, em 2014, com o paulista Marcelo Zormann. Em meio a uma rotina de treinos mais pesada, para consolidar a difícil transição aos profissionais, o garoto conversou com o GloboEsporte.com.

 

> Confira a entrevista completa:

GloboEsporte.com: Você ficou surpreso com a convocação da Confederação para representar o Brasil no Pan?
Orlandinho: Eu não estava esperando, não. Sabia que poderia acontecer, mas não tinha nem um pouco de esperança. Fiquei muito feliz. Vai ser uma grande honra. É sempre legal estar vestindo as cores do Brasil. Estou representando o Brasil e todos outros jogadores que não vão estar lá. O Feijão, o Bellucci, o Marcelo Mello. É um time todo nosso. É uma grande responsabilidade, mas com certeza vai ser uma grande chances de estar entre os profissionais.

 O pessoal deposita cada vez mais esperanças em mim. É uma pressão boa, mas eu sinto que toda vez que entro em quadra, o pessoal espera um resultado positivo. Eles querem que eu seja o “Novo Guga”, mas isso não vai existir.

Como tem sido a preparação para o Pan? Você adotou algum treinamento especial?
Estamos fazendo um treinamento para aprimorar a parte física, a resistência, para jogar contra os profissionais, e se preparar para o Pan, que vai ser uma grande experiência. Uma experiência nova para mim, atuando profissionalmente pelo Brasil.

Como você encara essa transição do júnior para o profissional?
Essa transição, do juvenil, do júnior, para o profissional é muito difícil. É a parte mais complicada da carreira. Estou começando, aos poucos, a aumentar a carga de treinos físico, para ter mais resistência, e treinando cada vez mais forte.

Você acredita que é possível conquistar o ouro para o Brasil no Pan?
É difícil, mas não é impossível. A gente sabe disso. Cada jogo é diferente. Em uma semana, você pode estar bem, se sentindo confiante, e as coisas dão certo. Em outra, você pode não estar se sentindo confiante. Temos que ver. Vai ser uma semana de competição como todas as outras.

Você já ganhou título de Grand Slam e liderou o ranking de júnior, feito que Guga nunca alcançou quando garoto. Também chegou à primeira vitória como profissional mais cedo do que Guga. A comparação é inevitável. Como você lida com essa pressão?
O pessoal deposita cada vez mais as esperanças em mim. É uma pressão boa, mas pesa em outros atletas. Eu sinto que toda vez que entro em quadra, o pessoal está esperando um resultado. Mas eu vou ter altos e baixos, vai ter derrotas no começo dos campeonatos, que eu tenho que lidar. Tem que ficar firme, continuar treinando, para evoluir e poder chegar lá em cima o mais rápido possível. Eu sei que todo mundo deposita bastante esperança. Eles querem que saia o “Novo Guga”, mas eu sei que não vai existir um “Novo Guga”.

Orlando Luz Orlandinho Roger Federer (Foto: Reprodução/Instagram)Orlandinho posa com Federer no saibro de Roland Garros (Foto: Reprodução/Instagram)

Você é natural de Carazinho, no Rio Grande do Sul, mas vive e treina em Santa Catarina, em Balneário Camboriú. Aí, na terra do Guga, ele o acompanha, aconselha?
Ele sempre comenta algo comigo. Sempre que posso estar perto dele, estou. Ele sabe que a pressão sobre mim é grande, e ele me ajuda muito. Quando perdi em Roland Garros, nas semis, ano passado, saí cabisbaixo. Aí, ele me procurou e falou: “Não fica assim. Bocê tem que jogar a semifinal de duplas ainda. Quando eu tinha a sua idade, nem sonhava em estar aqui. Não é o fim do mundo”. É isso. São coisas que ele vem passando O tênis é uma carreira muito dura. Se ficar martelando cada vez que acontece alguma coisa, você enlouquece. Você erra uma bola e perde. A gente se culpa muito. Você acaba enlouquecendo.

Atualmente, o principal jogador do Brasil é Thomaz Belluci, número 42 do mundo. Uma grande colocação, pouco valorizada aqui no país. Como você encara essa necessidade de ser o número 1 para chamar atenção em solo brasileiro?
Exatamente. Ele já foi 21 do mundo, e ninguém presta atenção. Não dão bola, porque eles comparam com o Guga, que fez algo quase impossível. O Bellucci joga muito. O Wawrinka, por exemplo, só foi conquistar o primeiro Grand Slam com 31 anos. O Bellucci tem 26. Os tenistas estão ficando cada vez mais em quadra. Deve ter quatro ou cinco jogadores com menos de 20 anos no Top 100.

Você treinou com Roger Federer em Roland Garros, como número 1 do mundo. Como foi a experiência?
Foi muito legal. Ele é uma lenda do tênis, sempre que posso, fico por perto dele. Principalmente batendo na bola. Ele é muito gente boa. Nada marrento. Conversou comigo, batemos bola. Ele me deu os parabéns por ser o número 1 do mundo, no ranking júnior. Me disse que existe a diferença do profissional para o júnior, mas que nada é impossível.

Marcelo Zormann e Orlando Luz Wimbledon (Foto: Getty Images)Orlandinho e Marcelo Zormann foram campeões das duplas de Wimbledon em 2014 (Foto: Getty Images)

No ano passado, o Tiago Fernandes, que venceu o Australian Open em 2010, se aposentou de forma precoce, aos 21 anos. Você pensa sobre isso?
A gente sabe que vários talentos pararam de jogar tênis e foram para a faculdade. É inevitável, seja por lesões, por decisões mal feitas. É uma bola de neve, que vai se tornando um fardo, e você não consegue se livrar disso. Tenho que trabalhar para não acontecer nada comigo também.

Como você lida com as derrotas?
É duro, eu me culpo bastante, mas tenho que entender que o tênis não é uma prova de natação, em que, às vezes, você está bem em um dia e vence a prova e é campeão. Tem que estar bem vários dias seguidos, e o cansaço vai acumulando. Acabam vindo as derrotas.

Mesmo que eventualmente você encerre a carreira de forma prematura, o tênis já lhe proporcionou muitos momentos bons, na vida, já aos 17 anos, né?
Sem dúvida alguma. Quero continuar no tênis. É só o que penso em fazer da vida, mas tenho que reconhecer que o tênis já me proporcionou muito. Eu já conheci vários lugares, vários países, pessoas diferentes, de culturas diferentes. É muito legal ver que o tênis me deu tudo isso.

 O Guga sempre comenta algo comigo. Sempre que posso estar perto dele, estou. Ele sabe que a pressão sobre mim é grande, e ele me ajuda muito. O tênis é uma carreira muito dura. Se ficar martelando cada vez que acontece alguma coisa, você enlouquece.
Orlandinho

Como você consegue conciliar a rotina de treinamentos e competição com os estudos?
Colégio sempre foi uma coisa dura de conciliar, mas de algum jeito, tinha que fazer. Acabei no ano passado. Tinha que terminar, acabar o Ensino Fundamental e o Ensino Médio é fundamental. Estudei o segundo ano indo para escola normalmente. O terceiro fiz em casa, à distância. Nós conseguimos arrumar um jeito de concluir o Ensino Médio. Conciliar uma faculdade jogando é difícil. Então, foi assim. Às vezes tem que deixar de lado. Não é muito fácil, mas é a vida.

Você, como adolescente, consegue manter uma vida social com os amigos?
Eu tento estar com os meus amigos sempre que posso, mas tem que evitar bastante as festas, até porque eu treino a semana inteira e no sábado de manhã. Aí, no sábado de noite, você vai sair, e fica cansado. Aí, o cansaço acumula, e na segunda-feira, quando é para retomar os treinamentos, você já começa a semana cansado, então, normalmente, saio para jantar, ou faço algo mais leve, como ir à praia.

E as namoradas?
Namorar é difícil. A gente não para em lugar nenhum. Treino uma semana aqui e fico um mês longe. É difícil ter um relacionamento mais longo, mas claro, sempre que posso, tento namorar. Nós temos vida, também.

Você sempre quis ser tenista? Nunca pensou em outro esporte?
Eu comecei no tênis cedo. Jogo desde os três anos. Mas, claro, amo futebol. Sempre quando posso brincar, brinco. Mas nunca pensei em trocar, até porque meu pai era meu treinador, jogava tênis comigo.

Orlando Luz Orlandinho final Jogos Olímpicos Nanquim (Foto: Wander Roberto/Inovafoto/COB)Orlandinho foi prata nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Nanquim (Foto: Wander Roberto/Inovafoto/COB)

No Rio Grande do Sul você é gremista ou colorado?
Sou colorado. Quando eu morava no Rio Grande do Sul, acompanhava bastante. Acompanhei em 2006, acompanhava bem. Me lembro da final, de tudo, mas hoje, só acompanho a seleção brasileira. Se bem que, do jeito que anda, nem a Seleção tenho acompanhado.

Costuma visitar Carazinho com Frequência?
É muito difícil. Quase nunca dá. Quando estou aqui, estou descansando. Carazinho é longe. Acabo ficando aqui por Santa Catarina, para descansar.

Aos 17 anos, qual é o principal sonho do Orlandinho?
É o sonho de todo o tenista. Ser campeão de Grand Slams, conquistar torneios importantes e chegar ao número 1 do ranking.

  Ted Hendricks Jersey